Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

Os filhos e a cama dos pais

O mais velho já não acha piada e muito raramente se aninha connosco. Uma ou outra vez, só porque dá jeito para pedinchar qualquer coisa ou desabafar um qualquer aperto. De resto, adora a cama dele e gosta mesmo de dormir sozinho. A mais nova, se pudesse, mudava-se para o nosso quarto. Deleita-se na nossa companhia. É um prazer e isso é notório. Não é medo, não é nenhuma fobia, nada, porque desde bebé, dormiu sempre sozinha. É puro prazer. Eu nem sempre acedo, porque depois, a meio da noite torna-se insuportável partilhar a cama com ela e lá é preciso levá-la ao quarto dela. Quando o pai não está, ela dorme no lugar dele e o mais velho apodera-se da almofada do pai. É sempre assim. Ontem fui eu que precisei de colo. Chamei-o, ela já lá estava, mas eu queria mesmo o colinho dos dois. E aninhamo-nos na minha cama. Ela, depois de deitar a cabeça na almofada, morreu para a vida e caiu num sono profundo, em menos de um fósforo. Se há alguém que adora dormir é esta miúda. Ele ouviu-me e acariciou-me a mão que estava entrelaçada na dele. Eu sabia que ele não ia adormecer ali, que a determinada altura, se haveria de querer ir embora. Continuamos a falar e fez-me uma confidência doce, sobre um momento do seu dia. Não comentei, reforcei o nosso abraço e apertei-o contra mim. E quando ele sentiu que o sono me estava a chegar e que a minha mão de forma involuntária se estava a desprender da dele, levantou-se, deu-me um beijo e desejou-me uma boa noite. Papéis invertidos literalmente.
publicado por susana às 04:11
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2015

Domingo doce

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Não foi difícil escolher as fotos. Podia ter colocado aqui tantas outras, que com certeza espelhariam o dia de hoje. Fotografias do mar, da minha praia, das gaivotas ao sol como plantações na areia. Dos barcos ou do farol. Do paredão! Da espuma das ondas e das pegadas na areia. Das bolas de Berlim, ou do arroz de marisco da mãe! Ou fotos das gargalhadas em família à volta da mesa. Ou das brincadeiras dos primos, da apanhada e da fugida. Dos sorrisos e dos abraços. Dos olhares comprometedores! Ou selfies e sol! Tantos momentos em fotos, tantos momentos guardados apenas por nós. Mas as panquecas são sinónimo de domingo. Quando há panquecas, há rituais nossos. De dias sem pressa que começam, quase sem saber que a vida lá fora já acordou! O relógio preguiça e o dia amanhece devagar, como se os ponteiros do relógio se arrastassem sem vontade de acordar. O pequeno almoço de domingo é tudo aquilo que contraria a primeira refeição num dia de semana normal, de trabalho e escola. É por isso que sabe tão bem. O namoro sem pressas, o nada para fazer. O não querer fazer nada. Só os beijos, que um a um, numa catadupla de carícias, nos acorda. O frio da rua, o quente dos lençóis, o silêncio da manhã e mais os beijos dos filhos. Um pequeno almoço simples, tão simples! As panquecas de domingo. O doce de tomate, a canela e o açúcar. Há manjares assim, tão banais, de uma simplicidade tamanha. Tão capazes de adoçar o melhor do nosso dia. Porque é preciso tão pouco para dar sabor à vida!
publicado por susana às 19:54
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Eu pescador

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"Eu pescador que pesco por um instinto antigo e procuro não sei se o peixe se o desconhecido e lanço e recolho a linha e tantas vezes digo sem o saber o nome proibido.

Eu que de cana em punho escrevo o inesperado e leio na corrente o poema de Heraclito ou talvez o segredo irrevelado que nunca em nenhum livro será escrito.

Eu pescador que tantas vezes faço a mim mesmo a pergunta de Elsenor e quais águas que passam sei que passo sem saber a resposta. Eu pescador.

Ou pecador que junto ao mar me purifico lançando e recolhendo a linha e olhando alerta o infinito e o finito e tantas vezes fico como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta que busco o peixe o verso o número revelador e tantas vezes sou o último do planeta de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso senão pescando o que se vê e não se vê e mais que peixe quero aquele verso que me responda ao quando ao quem ao quê.

Eu pescador que trago em mim as tábuas da lua e das marés e o último rumor de um nome que alguém escreve sobre as águas e nunca se repete. Eu pescador."

(Manuel Alegre, in Senhora das Tempestades)
publicado por susana às 19:11
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