A Laranjinha deixou-nos um desafio empolgante que abraça várias vertentes, a fotografia, a culinária e a escrita.
Falar de um doce de infância é falar de Pão de Ló. Correndo o risco de me tornar repetitiva não seria uma justa participação se promove-se outro doce.
Dos cheiros e das lembranças da cozinha da minha mãe, este foi efectivamente o bolo da minha infância.
O Pão de Ló era colocado de forma majestosa no centro da mesa sobre a toalha de renda. Não havia outra forma de presentear o Domingo de Páscoa.
Os ovos eram caseiros, uma dúzia, encomendados com a antecedência necessária.
As mulheres que estavam à esquina a vender fruta e legumes, que os traziam no carrinho de mão, também vendiam por encomenda coelhos e galinhas.
Ás vezes vasos de plantas, orquídeas em flor, cheios de cachos de cor e beleza. A encomenda chegava a casa pelas mãos da minha mãe, no sábado pela manha.
Da rua, regressava com o saco da mercearia, os ovos caseiros e o pão fresco guardado na saca de pano cuidadosamente passada a ferro e bem vincada.
O bolo era feito à tarde, depois de uma visita ao cemitério. Da campa dos avós maternos, tão lavada e enfeitada com as flores possíveis naquele fim de semana.
Um pinga de café quentinho e uma fatia de regueifa doce, que ajudava a retemperar energias depois da longa caminhada, que o trajecto para o cemitério fazia-se a pé, de balde na mão. No regresso, já sem as flores, depositadas fielmente na campa, parávamos na casa daquela senhora que cozia a regueifa a lenha. Só o fazia uma vez no ano, por altura da Páscoa.
Era chegada a hora de fazer o bolo e eu lembro-me bem de toda aquela excitação!
Da bacia enorme, do bater das gemas com o açúcar, sempre para o mesmo lado, com a mesma cadencia e braço firme. Uma tarefa demorada, que esse era o segredo para que o bolo crescesse e ficasse fofo. A colher de pau não parava de bulir e as minhas mãozinhas seguravam aquela bacia para que não rodopiasse sobre si. Uma mistura esbranquiçada a borbulhar dava-nos conta de estar no ponto.
Do que eu gostava daquela tarde! Do rapar da bacia os restos da massa crua, tão doce quanto aquele momento.
Cozia em forno lento e era vê-lo crescer e ganhar cor.
O melhor prato do serviço de jantar levava o Pão de Ló à mesa e o compasso trazia-nos uma mensagem de esperança e a bênção aos nossos corações.
12 ovos inteiros
O peso dos ovos é o peso do açúcar
Metade do peso dos ovos é o peso da farinha
Uma colher de fermento
Um cálice de vinho do Porto
Batem-se as gemas com o açúcar até obter uma massa homogénea esbranquiçada, juntam-se as claras em castelo alternando com a farinha.
Vai a cozer a 180º, cerca de 40 minutos.
Um óptimo acompanhamento para recordações e lembranças de infância!
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