Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Conversas de Talho

Bem podia ter sido conversa de café, de ginásio, de cabeleireiro, mas não, foi mesmo conversa de talho.

De pé, a aguardar a minha vez, sem me lembrar muito bem como e porquê, houve alguém que disse, que de hoje a um mês fazia 25 anos de casada e por isso estava feliz.

Surdiu a conversa, falou ela, falei eu e até o homem do talho deu o seu palpite, que era bom deixa-lo falar, ou não tivesse ele um cutelo na mão que impunha respeito.

Admirei aquela mulher, queria chegar à idade dela com aquela garra e energia, mas o que me surpreendeu, foi tão simplesmente os anos que nos separam, sete anos.

Ela tem apenas 7 anos a mais do que eu, ela tem 44 anos.

Apenas 44 anos, mas uma vida preenchida de 4 filhos, de duas netas da filha mais velha, um marido e as aulas que frequenta para concluir o 12º ano e não estamos a falar de novas oportunidades mas sim do regime normal.

Uma filha com 24 anos, uma filha de 21 anos, um filho de 19 anos e o mais pequenino lá de casa, de 7 anos.

Uma vida preenchida de alegrias, mas também diz que não viveu a juventude, que não aproveitou quando era nova e reprova a ideia de se ser mãe muito cedo, como ela foi.

O mais novo nasceu prematuro, e a gravidez, recorda tão bem como foi atribulada por causa da diabetes, sim que ela é diabética e o parto teve que ser provocado cerca de dois meses antes do que estava previsto, e o filho mais novo nasceu a 8 de Dezembro, com pouco mais de dois quilos, sem pestanas, careca, muito frágil.

Quem o vê, diz a mãe, não diz que é uma criança que nasceu prematura e está muito bem tendo em conta as operações que já fez, e tanta quimioterapia a que já foi sujeito, devido aos tumores que lhe retiraram da garganta.

Não falava com a voz embargada nem tão pouco envergonha com receio de que dela tivessem pena, não!

Falava com orgulho dos filhos, de todos eles e o sorriso ainda se tornava mais brilhante quando falava das netas.

Não sei o nome dela, nunca a tinha visto antes e compro carne no talho do Bulhão há muito tempo.

Já estava atrasada para ir buscar os meninos à escola mas se pudesse tinha ali ficado para ouvir um pouco mais aquela mãe a falar.

Diz que o filho é como ela, adora a matemática mas é um desastre a português.

Está na segunda classe e está atrasado na escola, pudera, faltou tanto por causa do problema de saúde, mas gosta muito de fazer contas, mas ler é que não.

Porra que é complicado perceber o português, dizia ela.

Que quem fala assim dos filhos, ama-os muito.

Só queria que as mais velhas lhe oferecessem as alianças dos 25 anos, mas elas dizem que ela já tem aliança e não precisa doutra...

Que se calhar têm razão, diz a mãe, que o importante é fazer 25 anos de casada, aturar o mesmo homem e viver numa casa cheia.

Cheia de alegria, ainda que a saúde escasseie, mas que a esperança de melhores dias não os abandone.

Paguei a carne que comprei, desejei-lhe felicidades e uma boa noite aos presentes.

Muito se falou em pouco tempo, que eu até disse que gostava de ter sido mãe mais nova e que gostava de ter outro filho, mas ainda assim, a ideia dela e apesar de tudo, é que ter sido mãe nova não a deixou realizar outros sonhos próprios dos nossos vinte anos.

Certamente as compensações foram outras e ela acenou com a cabeça como que a dar-me razão.

São opções de vida que nos transformam, que nos fazem ver a vida com outros olhos, com muitas preocupações é certo, mas com muita alegria e orgulho nas nossas crias.

 

 

  

  

sinto-me: Iluminada
publicado por susana às 22:14
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